subtil

Estive deitada olhando a janela. Vez ou outra, consultei o relógio para me certificar de que o tempo passava. Ele não parecia passar, mas era preciso acreditar na exatidão dos ponteiros. Muitas vezes, nada disseram, ou quem sabe me tenham dito tudo. Um tudo de vazio, de falsos tique-taques, de fumaça esvanecida no peito nu de quem me leu. N’outro lugar existe essa mesma janela e essas mesmas consultas. Não existe, porém, a minha existência minuta; e diminuta. Mero rabisco sendo rabiscado enquanto a observo quieta. Pequena no meu pensar, configurei fugas, centrifuguei lembranças e cheguei a inventar motivos diversos para o aborto do sentido daquilo que me era inexato. O quarto foi escurecendo sozinho. Soube que em pouco tempo não teria mais esse fenômeno diante dos meus olhos e que ele não mais faria parte de mim e das minhas angústias. Esvaíram-se as sensações de vez. Então resolvi perder mais algumas horas assistindo meu cenário padecer em seus próprios encantos. Olhei com pesar para cada pedacinho e me despedi com um soberbo gozo de recomeço.

6 afago[s]:

Marcelo Mayer said...

sempre temos tantos 5 minutos pela frente.

cra said...

existem infinitas coisas, mesmo. e algumas duram muito.

Gabriela Domiciano said...

Janelas me fazem viajar!!!
=)

carolinda said...

"me despedi com um soberbo gozo de recomeço. "

que lindo ju. lindo lindo.

Aruanda said...

Fazia tempo que não vinha.
gosto do que você faz.

Bom ler este texto...
muito bom.

silenciosamenteazul said...

hoje eu também olhei a janela.