chá preto com canela

Perguntava-se, enquanto dava um gole miúdo no chá quente, se estava certo aquele sentir. Havia tanto o que temer e nada temia. O chá descendo pela garganta, queimando, quase sem gosto. Percebeu que errara na conta. Água demais pra chá de menos. Ainda assim, sentia-se o gosto fraco da canela. E o tomar do chá dava uma estranha sensação de prazer nos joelhos. Fazia-lhe formigar de um jeito quase engraçado. Parecia o ar gelado estar fugindo. De qualquer forma, nada daquilo parecia certo. Lembrou-se do sonho quente que tivera. Quentinho, mesmo. Era uma sala escura, com uma porta de metal. Olhando, parecia gelada. Mas ela adentrava a sala, sem medo de sentir-se congelando. E percebia que o frio era só aparência. Na verdade, a sala escura com porta de metal, era quente e muito aconchegante. Talvez fosse isso! Talvez a vida apenas aparentasse ser gelada. Mas era preciso coragem para passar daquela porta fria de metal e descobrir o quê real daquela sala. Coragem ela não tinha, embora não temesse nada e isso fosse antitético - até para ela, que era mesmo a personificação do que as pessoas chamam de antítese. Mais um gole de chá. Um gole um pouco maior, que já não estava tão quente. Os joelhos seguiam formigando, expulsando o frio da sua sala gelada - seu corpo gelado. As coisas pareciam começar a fazer sentido. Mais um gole de chá. Mais um gole de chá. Mais um gole...

5 afago[s]:

Aruanda said...

Agradeço o "uau".

Volto outra hora pra te ler...

carolinda said...

nossa, TI imaginei vivenciando isso, e passado o tempo, me vi na mesma situação, como quem quer ter coragem de passar da porta de metal, quem sabe só a aparência seja fria. Quem sabe...

lucas said...

que letrinhas miúdas!

Gabriela Domiciano said...

o chá a foi esquentando, espantando a frieza do mundo e dela mesma, é ótimo uma chá a noite, antes de se deitar, acalma, conforta!
=)

Rafael said...

Eu quero um gole de chá.