disposições
subtil
Estive deitada olhando a janela. Vez ou outra, consultei o relógio para me certificar de que o tempo passava. Ele não parecia passar, mas era preciso acreditar na exatidão dos ponteiros. Muitas vezes, nada disseram, ou quem sabe me tenham dito tudo. Um tudo de vazio, de falsos tique-taques, de fumaça esvanecida no peito nu de quem me leu. N’outro lugar existe essa mesma janela e essas mesmas consultas. Não existe, porém, a minha existência minuta; e diminuta. Mero rabisco sendo rabiscado enquanto a observo quieta. Pequena no meu pensar, configurei fugas, centrifuguei lembranças e cheguei a inventar motivos diversos para o aborto do sentido daquilo que me era inexato. O quarto foi escurecendo sozinho. Soube que em pouco tempo não teria mais esse fenômeno diante dos meus olhos e que ele não mais faria parte de mim e das minhas angústias. Esvaíram-se as sensações de vez. Então resolvi perder mais algumas horas assistindo meu cenário padecer em seus próprios encantos. Olhei com pesar para cada pedacinho e me despedi com um soberbo gozo de recomeço.