cinzas

Eu sempre fui cinza, desde que me lembro, desde sempre fui cinza. As pessoas ao meu redor insistem em me colorir, mas sou cinza, não tem volta. Meus olhos são negros, meus cabelos são negros, mas minha alma, minha alma foi sempre cinza. Me deixei colorir muitas vezes, d'uma fina camada de cores, selecionadas cores, cores que nunca me conseguiram cobrir na cinzetude. No fundo, no fundo fui sempre cinza, cinzenta;

Mas, com sorte, não serei sempre cinza. Um dia o cinza se há de apagar como tudo se apaga. E então não terei cores, nem finas camadas que me disfarcem,


serei apenas cinzas.
I wish I can handle me.
I wish I can handle TRUST.

there is no such thing as ...

Há uma brisa e meus olhos não hesitam em arder, catalogando segredos. Segredos que eu guardo, seguros, de mim mesma. Sublimes, flutuam dentro de mim, como trancados desconhecidos. Se os abro, eles são o tempo. Fechados são o momento que me resta antes do despertar. E de repente desprendem-se como uma lágrima. E sobressaem-se na forma de um tremor.

misery loves company II

inside out

fiódor

"...para escrever bem é preciso sofrer, sofrer, sofrer."

disposições

Da janela do ônibus me vejo parada diante de um hotel barato. Um homem muito sujo, empurrando um carrinho de compras cheio de tranqueiras valiosas está congelado na esquina. No meu olhar, um misto de desespero e esperança. Acendo nervosamente um cigarro e trago como fosse meu primeiro. Meus dedos finos prendem-no de forma trêmula. Os olhos negros procuram na paisagem desconhecida coisa que conforte e que me faça sentir em casa por um momento. Nesses mesmos olhos reluz uma agonia dilascerante - voltar pr'aquele quarto escuro, sozinha; e todo aquele tempo que não passa, os cinzeiros cheios de cinzas e o ar inundado em fumaça, pesado, difícil pra respirar. Fumo na rua. O cigarro na minha mão, ao longe, vai sumindo. A visão vai sendo consumida pelo trajeto e não posso assistir ao que fazia ali parada, às minhas decisões. Não posso me lembrar se entrei. Não lembro quanto pude resistir. Por muito tempo estive ali parada.

subtil

Estive deitada olhando a janela. Vez ou outra, consultei o relógio para me certificar de que o tempo passava. Ele não parecia passar, mas era preciso acreditar na exatidão dos ponteiros. Muitas vezes, nada disseram, ou quem sabe me tenham dito tudo. Um tudo de vazio, de falsos tique-taques, de fumaça esvanecida no peito nu de quem me leu. N’outro lugar existe essa mesma janela e essas mesmas consultas. Não existe, porém, a minha existência minuta; e diminuta. Mero rabisco sendo rabiscado enquanto a observo quieta. Pequena no meu pensar, configurei fugas, centrifuguei lembranças e cheguei a inventar motivos diversos para o aborto do sentido daquilo que me era inexato. O quarto foi escurecendo sozinho. Soube que em pouco tempo não teria mais esse fenômeno diante dos meus olhos e que ele não mais faria parte de mim e das minhas angústias. Esvaíram-se as sensações de vez. Então resolvi perder mais algumas horas assistindo meu cenário padecer em seus próprios encantos. Olhei com pesar para cada pedacinho e me despedi com um soberbo gozo de recomeço.

maybe it's for real

Asas são só asas. Não entendo mais a velocidade com que o tempo passa. Com toda uma estranha simplicidade, tiram-me os pés do chão e num ímpeto de voracidade, consome-se alguma coisa de muito ardente dentro do meu peito. Singulares, tranformam-se em mãos que me giram sem girar. Os olhos semi-cerrados e tudo aquilo que fazem. Tudo aquilo que faz.

misery loves company

Acontece que você tenta, mas não me machuca mais. Já não são seus braços que se enrolam em mim, não é sua barba que me arranha, não é sua voz ao telefone. E se acordo de manhã, não é você que quero encontrar, não é por você que eu espero. A cerveja sou eu que pago e o outro copo eu não lhe entrego. Começou a amanhecer e os dias não são mais para você. Meus livros não contam mais histórias sobre nós dois. É que nossos nomes não estão na mesma linha. Entre os dois, não há mais uma coordenada aditiva. Agora os bares esperam apenas por mim. E por alguém mais que, ocasionalmente, apareça.

chá preto com canela

Perguntava-se, enquanto dava um gole miúdo no chá quente, se estava certo aquele sentir. Havia tanto o que temer e nada temia. O chá descendo pela garganta, queimando, quase sem gosto. Percebeu que errara na conta. Água demais pra chá de menos. Ainda assim, sentia-se o gosto fraco da canela. E o tomar do chá dava uma estranha sensação de prazer nos joelhos. Fazia-lhe formigar de um jeito quase engraçado. Parecia o ar gelado estar fugindo. De qualquer forma, nada daquilo parecia certo. Lembrou-se do sonho quente que tivera. Quentinho, mesmo. Era uma sala escura, com uma porta de metal. Olhando, parecia gelada. Mas ela adentrava a sala, sem medo de sentir-se congelando. E percebia que o frio era só aparência. Na verdade, a sala escura com porta de metal, era quente e muito aconchegante. Talvez fosse isso! Talvez a vida apenas aparentasse ser gelada. Mas era preciso coragem para passar daquela porta fria de metal e descobrir o quê real daquela sala. Coragem ela não tinha, embora não temesse nada e isso fosse antitético - até para ela, que era mesmo a personificação do que as pessoas chamam de antítese. Mais um gole de chá. Um gole um pouco maior, que já não estava tão quente. Os joelhos seguiam formigando, expulsando o frio da sua sala gelada - seu corpo gelado. As coisas pareciam começar a fazer sentido. Mais um gole de chá. Mais um gole de chá. Mais um gole...