disposições

Da janela do ônibus me vejo parada diante de um hotel barato. Um homem muito sujo, empurrando um carrinho de compras cheio de tranqueiras valiosas está congelado na esquina. No meu olhar, um misto de desespero e esperança. Acendo nervosamente um cigarro e trago como fosse meu primeiro. Meus dedos finos prendem-no de forma trêmula. Os olhos negros procuram na paisagem desconhecida coisa que conforte e que me faça sentir em casa por um momento. Nesses mesmos olhos reluz uma agonia dilascerante - voltar pr'aquele quarto escuro, sozinha; e todo aquele tempo que não passa, os cinzeiros cheios de cinzas e o ar inundado em fumaça, pesado, difícil pra respirar. Fumo na rua. O cigarro na minha mão, ao longe, vai sumindo. A visão vai sendo consumida pelo trajeto e não posso assistir ao que fazia ali parada, às minhas decisões. Não posso me lembrar se entrei. Não lembro quanto pude resistir. Por muito tempo estive ali parada.

subtil

Estive deitada olhando a janela. Vez ou outra, consultei o relógio para me certificar de que o tempo passava. Ele não parecia passar, mas era preciso acreditar na exatidão dos ponteiros. Muitas vezes, nada disseram, ou quem sabe me tenham dito tudo. Um tudo de vazio, de falsos tique-taques, de fumaça esvanecida no peito nu de quem me leu. N’outro lugar existe essa mesma janela e essas mesmas consultas. Não existe, porém, a minha existência minuta; e diminuta. Mero rabisco sendo rabiscado enquanto a observo quieta. Pequena no meu pensar, configurei fugas, centrifuguei lembranças e cheguei a inventar motivos diversos para o aborto do sentido daquilo que me era inexato. O quarto foi escurecendo sozinho. Soube que em pouco tempo não teria mais esse fenômeno diante dos meus olhos e que ele não mais faria parte de mim e das minhas angústias. Esvaíram-se as sensações de vez. Então resolvi perder mais algumas horas assistindo meu cenário padecer em seus próprios encantos. Olhei com pesar para cada pedacinho e me despedi com um soberbo gozo de recomeço.

maybe it's for real

Asas são só asas. Não entendo mais a velocidade com que o tempo passa. Com toda uma estranha simplicidade, tiram-me os pés do chão e num ímpeto de voracidade, consome-se alguma coisa de muito ardente dentro do meu peito. Singulares, tranformam-se em mãos que me giram sem girar. Os olhos semi-cerrados e tudo aquilo que fazem. Tudo aquilo que faz.

misery loves company

Acontece que você tenta, mas não me machuca mais. Já não são seus braços que se enrolam em mim, não é sua barba que me arranha, não é sua voz ao telefone. E se acordo de manhã, não é você que quero encontrar, não é por você que eu espero. A cerveja sou eu que pago e o outro copo eu não lhe entrego. Começou a amanhecer e os dias não são mais para você. Meus livros não contam mais histórias sobre nós dois. É que nossos nomes não estão na mesma linha. Entre os dois, não há mais uma coordenada aditiva. Agora os bares esperam apenas por mim. E por alguém mais que, ocasionalmente, apareça.

chá preto com canela

Perguntava-se, enquanto dava um gole miúdo no chá quente, se estava certo aquele sentir. Havia tanto o que temer e nada temia. O chá descendo pela garganta, queimando, quase sem gosto. Percebeu que errara na conta. Água demais pra chá de menos. Ainda assim, sentia-se o gosto fraco da canela. E o tomar do chá dava uma estranha sensação de prazer nos joelhos. Fazia-lhe formigar de um jeito quase engraçado. Parecia o ar gelado estar fugindo. De qualquer forma, nada daquilo parecia certo. Lembrou-se do sonho quente que tivera. Quentinho, mesmo. Era uma sala escura, com uma porta de metal. Olhando, parecia gelada. Mas ela adentrava a sala, sem medo de sentir-se congelando. E percebia que o frio era só aparência. Na verdade, a sala escura com porta de metal, era quente e muito aconchegante. Talvez fosse isso! Talvez a vida apenas aparentasse ser gelada. Mas era preciso coragem para passar daquela porta fria de metal e descobrir o quê real daquela sala. Coragem ela não tinha, embora não temesse nada e isso fosse antitético - até para ela, que era mesmo a personificação do que as pessoas chamam de antítese. Mais um gole de chá. Um gole um pouco maior, que já não estava tão quente. Os joelhos seguiam formigando, expulsando o frio da sua sala gelada - seu corpo gelado. As coisas pareciam começar a fazer sentido. Mais um gole de chá. Mais um gole de chá. Mais um gole...

num canto, tu.

Nem meus pêlos se revoltam mais. 

Teu jeitinho canhoto de ser destro fez tudo perder a graça. E teus olhos não saem do meu raio de visão.

Cólera; sem coesão. 

indícios

Meu dia úmido anoiteceu. As nuvens ficaram alaranjadas e despencaram em mim. Tudo se despencou em mim. Admiti com os olhos de quem quer, fiz tua presença necessária. O frio da manhã se valeu. O sol que cegou olhos se valeu. Meus olhos, teus olhos; os encontros e olhares se valeram. Olhares já queimados de tardes ensolaradas; minha mão que quase toca a sua, sem tocar, sem tomar partido; a respiração tua que ouço prestando atenção, para guardar na memória como fossem juras; tu estás te valendo. Eu abri a janela para deixar o cheiro de terra molhada entrar, e o vento trouxe a chuva para dentro. Dentro de mim. O chão ficou escorregadio, e não sinto medo do deslize. Sinto que espero por ele. A chuva molhou a cama, a trama e a calma. Um banho de chuva para lavar nossos ares, lavar minha alma, aproximar corpos. Dou o meu aval para que amanheça. 

o topo do arranha-céu

Aqui estou eu, parada e nua num mundo de vestidos. Esperando que o tempo passe, que a dor passe, que seja possível não ter mais lembranças. Tentando não pensar no inevitável quando os números se repetem no relógio. Eu, que sempre quis não ser humana, deparo-me com uma menina nua defronte ao espelho. Uma humana nua, despida de toda a força, coragem e vontade. Olhando bem, essa menina sempre esteve nua. Entrou nua em todos os lugares que pôde. Escreveu nua, amou nua e agora procura suas vestes. Não há mais porque adiar esse encontro. Um dia como esse não merece a ternura de estar nua diante do público. Talvez seja mesmo necessário vestir-se para sofrer bem, para ter paz. A calmaria não é digna de tanta nudez. Encontrei uma roupa que acolhe e cura. E aquele tremor, então, era só frio. 


ponto essencial

Eu sei até que ponto exato posso continuar nesse frênese de paixão que dói. É uma colherada bem grande de um doce tão doce que a garganta não aguenta, mas minhas mãos não buscam o copo d'água. Porque buscar o copo d'água seria abrir mão da doçura tão imensa que essa colherada propõe e isso eu não quero. Continuo engolindo colheradas e mais colheradas desse doce infinito, interminável e escolhido. E me programo, sonho e vejo, penso nas mãos que me tocam. Vejo olhos que ainda não vi, tão nítidos, olhinhos olhando meus olhos. Sinto saudade de um pedaço de mim que nunca tive, um pedaço que deve ser tão doce quanto o doce que a garganta sente que arranha. Temo que percamos o sabor, temo que implore pela água, temo que me perdoe e que sejamos felizes. Temo que não soframos, temo que a vida não arranhe mais, e seja agradável. Sei que o que deixa tudo assim tão doce é a dor disso tudo que temos. Sei que isso de sofrer é a simetria daquilo que chamamos amor. Não quero ser feliz com você, entenda, quero sofrer pra amar. Mais.

one more night

Hoje fechei a janela que você abriu sem me pedir permissão.